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Literária I - Paulo Henriques Brito

Lembranças pouco nítidas, provavel-

mente falsas. Imagens que se ordenam

segundo uma lógica indecifrável,

talvez inexistente. Mãos que acenam,

uma porta entreaberta – não, fechada –

uma criança que não reconheço:

ou seja, muito pouco mais que nada.

É tudo que me resta do começo

disso que agora pensa, fala e sente

que pode ser denominado “eu”.

Claro que houve um instante crucial

em que esses cacos mal e porcamente

colaram-se. E pronto: deu no que deu.

Já é alguma coisa. Menos mal.

Publicado originalmente aqui: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-65/poesia/poesia-paulo-henriques-brito

orphanwork:

Fred Herzog, Curtains, 1972 © Fred Herzog

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Fred Herzog, Curtains, 1972 © Fred Herzog

contando até fatoriais

1.

algo me faz desconfiar que o sopro de vida que vem do escritório é na verdade um sopro de metais de Fela Kuti.

2.

descubro que não existe infusão gelada. todos chás nascem quentes.

3.

a fúria da natureza é um long play empenado.

XX.

rascunhos são apenas vasos de flores vazios.

4.

é possível adubar um vaso vazio.

Foto: Cath. An.

chicagohistorymuseum:

Muhammed Ali kissing a young girl, 1983, Chicago, Illinois. Photograph by Richard Gordon.
Want a copy of this photo?  > Visit our Rights and Reproductions Department and give them this number: iCHi-36027
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Muhammed Ali kissing a young girl, 1983, Chicago, Illinois. Photograph by Richard Gordon.

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parte baixa {4}

19 de abril de 1998.

Pouco mais de 40 almas enlutadas promovem uma marcha fúnebre no piso úmido do Cemitério Municipal da cidade de Juiz de Fora.

O caixão simples – madeira cor de mogno – estava lacrado.

Luis Alberto dos Santos Zimerman foi encontrado morto um dia antes. Seu corpo encontrado na linha do trem entre os bairros Mariano Procópio e Democrata, no início do subúrbio da cidade.

Ninguém soubera dizer como foi parar ali. Se havia caído nos trilhos ou simplesmente deitado e esperado a morte chegar.

Só se sabe que quando as primeiras crianças foram pra escola pela manhã, viram a triste cena e chamaram a polícia.

Luis estava desfigurado, mutilado, destruído como a alma da cidade.

O reconhecimento do corpo se deu pelos documentos na carteira.

Não tinha familiares próximos, apenas uma tia-avó. A pessoa mais importante da convivência de Luis era Sidnei Sampaio Filho, um amigo de muitos anos, companheiro de copo, brigas e aventuras cidade a fora.

Naquele dia de abril, Sidnei segurava a alça do caixão de Luis como se segurasse a mão do amigo e tentasse impedir que ele caísse sobre os trilhos do trem.

Sabia que o amigo não bebia nem se drogava o suficiente para cair sobre os trilhos. Muito menos era vulnerável a ponto de que sofresse uma agressão e fosse atirado ali inconscientemente.

Restava apenas a opção do suicídio.

- Como eu nunca percebi, Flávia? Como eu nunca percebi que meu amigo estava querendo se matar?

- Para, Sidnei. Não se culpa, cara.

Flávia segurava firme o braço de Sidnei enquanto o outro dava conta de carregar o caixão.

Os olhos verdes de Flávia.

O som baixo e ao mesmo tempo ensurdecedor dos pés tocando o solo do cemitério em um dia cinza.

Quem nunca chorou um morto na cantina do Cemitério Municipal de Juiz de Fora?

- Amigo, me dá um café.

- Na xícara ou no copo?

- No copo. Coloca um pouco de conhaque aí, por favor.

Em Juiz de Fora a esperança é como um Santo Antônio fujão.

parte baixa {3}

Sidnei fumava seu cigarro a longas tragadas. Não temia nenhuma figura das ruas da cidade. Não temia a vida nem a morte. Ainda mais depois do trágico assassinato de Luiz – seu parceiro maior - na noite anterior.

Adentrou o Bar do Vagner. Sentou-se ao balcão, acomodando os cotovelos e espalmando as mãos ao rosto num sinal de cansaço e impaciência.

- O que vai ser, chefe?

- Um conhaque, faz favor.

O copo americano embaçado recebeu o banho do conhaque de alcatrão reluzente. A televisão alta. As vozes estridentes. As putas. Os travestis.

O conhaque desce a garganta como um rio de mágoas.

- Eu vou descobrir quem matou o Luiz antes dos gambés, não tenho dúvida.

- Falou comigo, chefe?

- Não. Falei com meu demônio de estimação.

A noite Juiz de Fora é um copo de tristeza.

- Sidnei…

- Conheço você?

- Deveria.

- Fale o que quer. Não estou com paciência hoje.

- Eu tenho o que você precisa.

- Onde você esconde sua buceta?

- Sempre sarcástico. Eu vou te levar ao assassino do Luiz. Mas preciso de algo em troca.

Sidnei cortou o ar como um raio, projetando o corpo grande em direção ao homem franzino e misterioso. Suas mãos alcançaram o pescoço com facilidade. Desferiu uma cabeçada no rosto do estranho que tombou sobre o chão como um chumbo.

O bar silenciou. Uma roda se abriu. Sangue. Ninguém é idiota o suficiente pra se meter na confusão desse tipo, a essa hora da madrugada melancólica de Juiz de Fora.

- FILHO DA PUTA, EU VOU ARRANCAR A SUA LÍNGUA PARA QUE VOCÊ NUNCA MAIS SE ATREVA A DIZER O NOME DO MORTO DESSA FORMA.

O franzino e estranho ser, ergue-se.

Parecia sorrir enquanto o nariz escorria sangue.

- Você já sabe que eu existo. Se quiser me espancar, fique a vontade. Vou lhe dar as costas e ir embora. Aguardo um contato, apenas espero que não me mate por trás.

Foi embora. Sidnei paralisado, em dúvida entre tomar outro conhaque ou dar uma voadora e executar de vez o serviço. Hesitou.

- Outro conhaque aí, chefe.

- Tá na mão.